H a s s a n
 

Flávio Cruz

 

 

O RETORNO

.... naquele dia, Hassan retornou ao povo de sua terra. 

E chegou de repente, sem qualquer aviso, em um dia como todos os outros.

Porque todos os dias são iguais, até que aconteça algo que nos faça julgar um dia especial. 

E aquele, para o seu povo, foi um dia especial. Porque, ao deixá-los, Hassan lhes deixara a

saudade; assim, continuava nos seus corações. E o homem se alegra, ao ver ao seu lado

alguém que está em seu coração; pois, se a ausência de quem se ama é uma ilusão da saudade,

a sua presença é uma festa dos sentidos. 

Para o rio, Hassan encaminhou o seu corpo. E, ao banhar-se nas águas límpidas, teve a sensação de

retorno. Bem sabe o viajante que, por mais forte que seja a atração do mundo, nada existe de mais

doce que a volta ao lar. 

Depois, voltou a assentar-se entre eles. E disse, respondendo às muitas perguntas não formuladas: 

“- Eis que retorno, como vos prometi. E não em outras vestes, não com outras palavras, nem

mesmo no sopro do vento. E não foi a saudade que me trouxe a vós, embora

sempre presente em minha alma. A saudade, sendo gerada do amor, tem na sua tristeza a alegria e no

castigo a própria recompensa; triste, ter-me-ia sido não sentir a vossa falta. 

Sempre estivestes comigo, e jamais a vossa lembrança me foi pesada. Pois a bagagem que um

homem leva em sua alma é, ao mesmo tempo, a mais leve das cargas e a mais forte das correntes. 

Mas não é pela saudade que retorno e sim porque, mais uma vez, preciso de vós. 

Deixei-vos, para ouvir novas vozes e conversar com o meu silêncio. Porque é no silêncio que o homem

melhor encontra as suas perguntas e as suas próprias respostas; e é nas perguntas dos seus

irmãos, que reconhece as suas próprias dúvidas. Entretanto, Aquele que me deu a voz ainda não a

quis retirar, e as perguntas ainda se agitam em minha alma. Mentiria eu, se dissesse que muitas

dúvidas se transformaram em certezas; antes, necessito admitir que mais certezas se

transformaram em dúvidas, e devo continuar o meu aprendizado. 

E, se isto ocorre, é preciso continuar a missão. Pois um homem não pode parar de ensinar,

enquanto algo ainda lhe restar a aprender. E o pouco que consegui amealhar se perderia, se não o

confiasse à vossa guarda. 

Por isto, retorno. E sei que, na vossa bondade, me permitireis continuar a aprender, enquanto finjo

ensinar-vos. Pois mesmo o mais sábio dos homens necessitaria da crença de seus irmãos, para

acreditar em suas próprias palavras. Mais uma vez, caminharei entre vós. E vos falarei

do que eu próprio quero ouvir; porque, em essência, são os mesmos os desejos de todos os

homens. E não poderia ser de outra forma, uma vez que todos viemos da mesma Fonte e caminhamos para

o mesmo Destino.” 

Calou-se. E, enquanto os homens partiam a espalhar a notícia de sua volta, o medo visitou seu

coração. E disse, para consigo mesmo: “- Terei eu feito bem, em retornar? 

Acaso arde ainda, em minha alma, a chama que

poderá acender a lâmpada da sabedoria, em seus pensamentos? 

E, novamente, as minhas palavras conseguirão tocar os seus corações? 

Assusta-me o pensar que talvez me tenham transformado em uma imagem, como os homens

gostam de fazer àqueles a quem amam. Pois, se assim for, por certo os decepcionarei; nenhuma

realidade se pode comparar à perfeição de um sonho. 

E, ao decepcioná-los, talvez enfraqueça os nossos laços. Como o amor, quando nutrido da saudade,

às vezes desfalece após o reencontro. 

Entretanto, ninguém foge ao seu destino. E, quando pensamos caminhar, é a mão do Infinito

que guia os nossos passos. Assim, se aqui me encontro, é que era necessária a minha volta. 

Pois, como não é precioso o metal que não resiste ao teste, também não se pode chamar de amor o

sentimento que não resiste à realidade. E o amor não pode temer a si mesmo. 

Decerto, a missão não está cumprida. E aquele que se detém a meio do caminho que escolheu, jamais

conhecerá a alegria da chegada. Devo, pois, erguer mais uma vez a minha voz e ensinar aos

meus irmãos aquilo que eu mesmo preciso aprender. 

E não me cabe temer, ou duvidar do que a seguir lhes direi. Pois Aquele que aqui me trouxe decerto

falará por mim, como o vento que canta nas folhas das palmeiras; e nenhuma palmeira, por mais

insignificante que seja, deixa de cantar e ouvir a canção do vento, desde que a ele ofereça as suas

folhas. 

Que seja eu, portanto, como a lira que oferece as suas cordas. 

E, por mim, a mão do Infinito possa tocar as mais lindas melodias”.

     

A Beleza em Vós  A Gaivota e o Sonho 
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O amor e a felicidade   
   
   
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