Os vossos funerais

 

 

Como entender-vos? 

Eis que desvirtuais as coisas que vós mesmoscriastes. E humilhais os vossos sentimentos,

submetendo-os aos ditames do mundo. 

Como acontece nos vossos funerais. 

Pois submeteis os entes queridos, que se foram, a todo um ritual que nada lhes pode acrescentar. E,

ao invés de procurar a sua alma em vossa alma, a vossa preocupação é com o corpo, que já de nada

lhes serve. 

Assim, vos esmerais no aparato e na tola tentativa de fazer parecer que os seus corpos ainda

respiram. E sorris, em meio à tristeza, quando alguém comenta a beleza do cerimonial, ou a

aparência agradável do corpo. 

Que tolos sois! 

Exibis a vossa tristeza, como se fosse um estandarte. Melhor faríeis se permanecesses a sós,

com o vosso próprio coração, descobrindo que o ente amado permanece em vós; na vossa

lembrança e na vossa saudade. 

E vos esforçais, para que as vossas lágrimas demonstrem o pesar adequado. Como se existisse

uma medida para o sofrimento; como se apenas pudésseis sentir o que os outros vos permitam sentir. 

E permaneceis, por horas, ao lado do corpo imóvel.

Como se fosseis obrigados a aumentar o vosso sofrimento, contemplando a carcaça vazia que um

dia abrigou aquele que alegrou a vossa vida. 

Cuidais que, assim, podereis minorar a dor da perda? Acaso as palavras murmuradas, muitas

vezes destituídas de qualquer sentimento, podem aliviar a vossa tristeza? 

Ou não sabeis que ninguém passa por este mundo em vão? E que, enquanto viverem os sentimentos

que soube inspirar, toda pessoa permanece viva nos corações onde penetrou? 

Sim: melhor faríeis se apenas vos permitísseis sentir, e não vos preocupásseis em homenagear a

um corpo vazio. Pois, assim fazendo, procedeis como se homenageásseis a uma casa, onde um dia

morou aquele a quem amais. 

Esquecei as pompas fúnebres, que apenas esvaziam a vossa bolsa e enchem de tristeza o

vosso coração. Rendei, àquele que se afastou do vosso convívio, a homenagem do vosso amor e da

vossa saudade; mesmo porque estas são as únicas oferendas que agora o podem alcançar. 

Entretanto, que na vossa saudade não exista o desespero; apenas a dor da separação, minorada

pela certeza de que um dia virá o reencontro. E a alegria dos dias em que juntos estivestes. 

Pois a planta não deplora a noite que se foi. Antes conserva o frescor das suas horas, para enfrentar o

calor do sol, até que o tempo a traga de volta. 

E, assim como o dia e a noite são as fases do tempo, o nascimento e a morte são as fases da

Vida. Que, como o tempo, continua a existir, embora os vossos olhos não a consigam ver. 

Podeis, todavia, sentir a presença do ausente amado em vossos corações; assim como sentis a

passagem do tempo em vossos corpos. Aprendei a arte de viver, e o vosso verdadeiro Eu o sentirá

vivo em vosso amor. 

E não mais necessitareis dos vossos funerais.

 

     

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